O cuidado oncológico foi transformado nos últimos anos pelo uso de tecnologias de sequenciamento de nova geração (NGS, na sigla em inglês) para orientar o diagnóstico, o prognóstico e a seleção de terapias1. Os testes com NGS tornaram-se o padrão assistencial em diversos tipos tumorais para: 1) estabelecer um diagnóstico de tumor definido molecularmente, 2) utilizar resultados de biomarcadores independentes do tipo tumoral para decisões terapêuticas e 3) determinar a estratificação de risco para tipos tumorais específicos2,3. Resultados precisos e oportunos de testes com NGS e outros biomarcadores tornaram-se componentes críticos para o cuidado e o planejamento do tratamento do paciente em oncologia.
Testes de NGS são geralmente realizados em grandes laboratórios de referência ou em laboratórios hospitalares/acadêmicos, quando as instituições possuem conhecimento especializado e recursos suficientes para desenvolver e manter tais testes. A organização Genomics Organization for Academic Laboratories (GOAL) foi concebida como uma rede colaborativa, focada no compartilhamento de conhecimentos acadêmicos e nos custos de reagentes4. Um esforço significativo do consórcio GOAL tem envolvido sessões de treinamento sobre componentes críticos para a revisão e elaboração de relatórios de estudos clínicos. Essas sessões foram desenvolvidas como aulas práticas instrucionais e incluem um workshop interativo sobre o integrative genomics viewer (IGV), para demonstrar suas funcionalidades básicas e avançadas na medicina genômica.
O IGV é uma ferramenta de visualização de dados projetada para permitir que os usuários revisem facilmente dados de NGS e outros conjuntos de dados extensos, já que a maioria dos dados de NGS é vasta e difícil de manipular sem uma interface gráfica do usuário5. Inicialmente, o IGV não foi desenvolvido para análise clínica de variantes. No entanto, devido à sua facilidade de uso para todos os profissionais moleculares, independentemente do nível de experiência em bioinformática, ele tem sido amplamente adotado por muitos laboratórios como parte do fluxo de trabalho complexo de revisão de dados6. Este estudo foi elaborado como um mecanismo para disseminar essas informações à comunidade mais ampla de profissionais laboratoriais em genômica.
A necessidade clínica do uso do IGV como parte de um fluxo de trabalho clínico inclui a detecção de erros de sequenciamento, o manejo de complexidades na chamada de variantes genômicas e outras alterações recorrentes nas quais a visualização adicional pode auxiliar na interpretação adequada dos dados7. O uso do IGV exige arquivos bioinformáticos padrão provenientes de um estudo de NGS8. Os recursos principais do software IGV permitem a visualização de dados de sequenciamento e exigem a configuração de um conjunto de preferências e opções para a interpretação clínica de variantes (Arquivo Suplementar 1).
O fluxo de trabalho de sequenciamento de leituras curtas é caracterizado pelos padrões de arquivos FASTQ, mapa binário de alinhamento (BAM) e formato de chamada de variante (VCF). A NGS alcança seu alto rendimento gerando milhões de leituras curtas em paralelo. Embora essa estratégia acelere significativamente a produção de dados, cada leitura é apenas um fragmento do DNA ou RNA original. Ela é fixada em alguma posição na placa de fluxo de NGS por meio de sua sequência adaptadora. As informações de sequência e qualidade das bases obtidas pelo processamento óptico são registradas em arquivos FASTQ. Essas leituras brutas consistem em sequências de nucleotídeos juntamente com suas pontuações de qualidade por base. Portanto, uma etapa inicial no processamento das leituras brutas é alinhar cada leitura a um genoma de referência8. À medida que cada leitura é atribuída a uma localização específica no genoma de referência com a maior probabilidade de alinhamento, as leituras correspondentes à mesma posição "se acumulam" em cada locus, e esses dados são armazenados em um arquivo BAM segundo as especificações do formato de mapeamento de alinhamento de sequência (SAM) (disponível em https://samtools.github.io/hts-specs/SAMv1.pdf; última verificação: 30/09/2025) (Figura 1A). Essas informações podem ser inspecionadas visualmente por meio de um navegador genômico, como o IGV. Conforme ilustrado na Figura 1B, a comparação entre as leituras ou entre as leituras e a própria sequência de referência pode indicar diferenças ou discrepâncias entre as sequências de nucleotídeos. Resumos apenas dessas posições "variantes" ao longo de todo o genoma são compilados em um arquivo VCF, que, portanto, pode ser muito menor em tamanho do que um arquivo BAM, mas ainda conter grande parte das informações úteis necessárias para a análise de variantes. Por esse motivo, o arquivo VCF é comumente a saída final dos pipelines de chamada de variantes (Figura 1C). Assim, enquanto os arquivos FASTQ contêm os dados brutos de leitura e qualidade, o arquivo BAM fornece informações sobre a confiança com que essas leituras são mapeadas no genoma, e o VCF representa as diferenças entre a sequência de referência e a sequência da amostra, fornecendo uma quantidade muito mais gerenciável de dados para análise e possível relato.
Os seis casos clínicos deste estudo ilustram cenários analíticos comuns associados à detecção de variantes somáticas em laboratórios moleculares, bem como os problemas que dificultam a compreensão e interpretação corretas dos dados subjacentes. No geral, esses casos foram escolhidos para ilustrar cenários interpretativos de complexidade crescente e como o uso de recursos avançados no IGV pode descrever melhor características genômicas abrangentes. Embora este estudo enfatize a interpretação de variantes somáticas, esses recursos são aplicáveis ao uso do IGV na visualização e interpretação de alterações germinativas6. Vale ressaltar que os termos utilizados neste artigo baseiam-se na química de sequenciamento por síntese e, quando apropriado, em outros termos ou conceitos análogos para outras plataformas.
Cada vigneta clínica começa com um contexto clínico muito breve, seguido por instruções sobre como investigar a variante ou variantes e resolver a questão: qual (se alguma) das variantes presentes é real e qual (se alguma) é um artefato. O contexto clínico, juntamente com os aspectos particulares dos dados de sequenciamento, é importante para responder a essa pergunta.